UM POUCO DA EMILIA ROMAGNA: MARANELLO, MODENA, PARMA E BOLOGNA

Falar de cidades como Maranello, Modena, Parma e Bologna situadas na Emilia Romagna, no norte da Itália, em um único texto, parece uma tarefa impossível, porém, decidi escrevê-lo para dar ao viajante uma ideia concisa da região, mas com informações suficientes para a sua locomoção por esses locais.

Fomos primeiramente a Bologna, vindos de San Marino. Como Bologna é a capital da região tudo em volta recai sobre a cidade. O transfer que pegamos em Rimini era um ônibus de ótima qualidade para o aeroporto. Tomamos o ônibus em frente a estação de trem em Rimini. Lá retiramos o carro que alugamos e fomos a Maranello. Escolhemos esta cidade por ser pequena, ter um bom hotel, bem acessível, no pé da estrada, de bom preço e estar equidistante das cidades mencionadas. Além do que, é a sede da Ferrari e tem um museu único no mundo:  o Museu Enzo e Dino Ferrari.

Fomos ao museu no dia seguinte a nossa chegada em Maranello. O museu tem vários carros de diferentes datas que contam a história da Ferrari, um salão com a Galeria dos Campeões, dentre eles, claro, o maior de todos, M. Schumacher! Além dos carros, tem também uniformes de várias épocas, acessórios, bancos especiais. Na saída, é possível brincar em simuladores de F1 e visitar a loja com o maior número de itens da marca! Entretanto, aviso: se quiser comprar algo, saiba que custará bastante! No lado de fora, há locadoras de carros da Ferrari – 15 minutos de aluguel custam mais de 100 euros! Não sou apaixonado por carros, mas estar na região e não visitar o museu, é imperdoável.

Mas vamos ao que mais me interessa: a enogastronomia!  Para começar o tema, falemos de Lambrusco. O vinho Lambrusco ao contrário do que a maioria acredita, não é só um vinho frisante: (veja que falei frisante e não espumante!), pode ser um vinho que chamamos de “vinho tranquilo” ou seja, sem CO3.  Pode ser seco, diferente do que se encontra no Brasil, os chamados amabile (doces). Pode ser branco, rosè ou tinto e é fruto de uma fermentação, e não de duas, como a maioria dos espumantes.  Eu já havia provado o seco, mas após parar para um café em Parma, resolvi tomar uma taça e comprovar o que já sabia. Provei um frisante seco, de boa qualidade, agradável, mas curto, de pouca complexidade. Um Lambrusco de melhor qualidade, custa um pouco mais. Porém, se o objetivo é apenas o de se refrescar ou saborear um bom sanduíche de mortadela (produto da região, Bologna), um Lambrusco como o que tomei  vale a pena.

WhatsApp Image 2020-02-27 at 21.02.10Após a parada, visitamos o Palácio di Pelotti, um complexo com teatro, biblioteca, Palácio de Estado e a área externa, onde se jogava “pelloti”, uma versão da Pelota Basca. O lugar é magnífico, o teatro todo feito de madeira foi reconstruído nos anos 80, em virtude dos bombardeios durante a Segunda Guerra. Passagem obrigatória pela cidade.

Então fomos a Parma. Mas estando lá, o que fazer? Comer, claro! Fomos a um restaurante que fica aberto o tempo todo, mesmo no inverno. Em Parma, existe o costume de se fechar o comércio por volta das 13h30 e reabri-lo às 16h30, sendo que o expediente segue até às 21h.

 

O restaurante chamava-se Galo D`Oro. Pedimos um prato de presunto de Parma de 12 meses, uma porção de pão frito e claro, tortellone à bolonhesa. As fotos não traduzem as maravilhas que comemos. Ah! Para beber, sempre água e vinho da casa. O pão chegou rápido e eu nunca tinha comido nada igual na vida! Me lembrou uma massa de pastel ( fogacia), só que mais macio e sem crocância. Perguntei como era feito, e para minha surpresa, nada de anormal. Trata-se de farinha, provavelmente “00”, com um pouco de leite e frita-se na hora. Aí a surpresa, em banha de porco. Um sabor sensacional, quente com o presunto junto, maravilhoso.

O tortellone à bolonhesa, é bem diferente do que comemos no Brasil com carne moída. Trata-se de um ragu de “salumeria”, correspondente aos nossos embutidos. Um ragu embutido, tipo salame, sem cura, fresco, cozido sem a capa, com o molho de tomate. Um sabor inesquecível. A pasta, ao dente, estava suculenta e no ponto certo. Como não poderia deixar de ser, uma bela ralada de queijo parmesão por cima. Até me esqueci do vinho! Um vinho da casa, muito bom e barato, 10 euros servido à mesa. Não precisávamos de mais do que um vinho da casa, quem tinha que brilhar era o prato.

Para voltarmos ao nosso hotel em Maranello, a 45 quilômetros de distância, passamos na Antica Salumeria de Parma e compramos um pouco de presunto e lascas de parmesão para comermos à noite com o que sobrou do nosso pão, que pedimos para embrulhar para comermos depois, é claro!

No dia seguinte, pela manhã, fomos a Modena. Começamos por visitar uma “acetaia”, uma pequena “vinícola” onde se produz o aceto balsâmico. O curioso é que o aceto além de ser feito da uva Lambrusco, tem um pouco de uva branca a trebbiano ou a moscato. Para ser um DOP deve ter no mínimo, 25 anos de envelhecimento e um IGP são 10 anos, mas podemos ter acetos a partir de 3 anos. Fomos a Acetaia Villa San Donnino.

WhatsApp Image 2020-02-27 at 20.59.23 (2)O processo começa por um cozimento, uma redução induzida para depois ser colocado no conjunto de barris, do maior para o menor. O bálsamo é trasfegado, mediante a evaporação, do maior para o menor, mediante a redução (veja a foto dos barris). Eles não são fechados propositalmente para a evaporação acontecer.

O mais curioso é que o aceto não era, originalmente, um vinagre, mas sim, um “remédio”, um bálsamo, (daí o “balsâmico”), um produto caseiro para todos os males. As famílias mais ricas que podiam se dar ao luxo de apartar litros de vinho para cozê-lo, faziam-no para guardar esse remédio e usá-lo em diferentes situações. Aos poucos, foi sendo dado ao aceto o uso de “vinagre” e, acreditem, existem acetos com mais de 200 anos – 100 ml pode custar mais de 1.500 Euros.

Não chegamos nem perto disso, compramos um de 10 anos mesmo e um de 25 anos. Aos que pensam que o aceto deve ser combinado apenas nas saladas, sinto muito. Ele pode ser usado em diferentes situações: carne, peixe e frutas. Eu gosto muito de usar os jovens e tintos em uma combinação de braseola, com rúcula, aceto e um pouco de parmesão ralado. Os de mais idade, usaria com um belo filet mignon.

Agora, a surpresa! Pode ser usado na sobremesa? Sim, experimente um pouco de aceto jovem com sorvete. Isso mesmo, sorvete! Sugiro de baunilha ou de nozes com aceto como cobertura: fica muito bom!

Mas, e o vinho com essa iguaria? Essa deu uma boa conversa com o dono da acetaia.  De sommelier para produtor de aceto, concordamos com tudo. Ao usar o aceto branco, jovem nas saladas, fiquemos com vinhos brancos, não muito leves, mas ácidos. Se usarmos os acetos brancos ou tintos jovens em peixes ou carnes de porco, seguir o trato com vinho branco mais espesso. Mas se usarmos os acetos mais velhos com carnes, suba para tintos com mais tanino — quanto mais velhos os acetos, mais taninos nos vinhos! Fechamos em um bom Barolo!

Após a visita, nos dirigimos ao centro histórico de Modena, uma cidade pequena, mas bem agradável. Junto ao Duomo, tem um Batistério, como em todo duomo. A curiosidade é que ele também está bem inclinado, como o de Pisa, mas não se assuste, pois não vai cair. Além do Duomo, visite a Torre Guilandina: do alto dela se vê a cidade inteira. Vale a pena pagar 3 euros pela visita.

WhatsApp Image 2020-02-27 at 20.59.22Sobre as comidas, não comemos grandes coisas nessa passagem. Essa região é uma das mais ricas em gastronomia da Itália e certamente teremos que voltar para um giro só pelos restaurantes. Devido ao inverno, muitos restaurantes estavam fechados,  inclusive um verdadeiro Michelin de 3 estrelas!  Ainda bem que estava fechado até fevereiro, assim evitamos de cair na tentação de gastar alguns bons euros com essa maravilha –  e ainda seguimos com a desculpa de que só não fomos porque estava fechado.

 

No próximo texto, vamos falar de Nápoles e Capri, aguardem!

 

Saúde!!!!!

 

Alexandre Furniel é sommelier e proprietário da Bendito Vinho

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