SAN MARINO,  PEQUENO EM TAMANHO,  MAS GIGANTE EM HISTÓRIA E HOSPITALIDADE

 

San Marino para os mais antigos como eu, era o local onde havia corridas de Fórmula 1, que na verdade, não era exatamente lá, pois um país de 61,19 Km² não tem como ter um autódromo, ainda que em padrões da F1. Acontece, que o GP de San Marino passou a ser o GP oficial da Itália, ainda que San Marino seja uma República independente dentro do território italiano. A disputa ocorria em Ímola, próxima à pequena cidade de Maranello, terra de Enzo e Dino Ferrari, fundadores da Ferrari. Ímola e Maranello estão próximas a Bolonha e Parma, mas comentarei sobre minha visita a estas cidades no próximo post.

Voltando a San Marino: o país e sua capital de mesmo nome, estão localizados no topo do Monte Titano e a República é patrimônio mundial pela Unesco. Aliás, é a mais antiga República do mundo, datada de 301 d.C. Mantém-se independente desde a sua fundação, apesar das diversas tentativas de ocupação de muitos líderes e da Igreja Católica. Não é membro da Comunidade Europeia, entretanto, o Euro é a moeda oficial, assim como o italiano é a língua oficial. Suas principais atividades econômicas são o turismo, a atividade bancária e o comércio. Inclusive, há ali um ótimo vinho, que falarei a seguir.

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A melhor maneira para se chegar a San Marino é através do aeroporto de Bolonha. De lá, tome um transfer para Rimini, cidade banhada pelo Mar Adriático e conhecida como Riviera Italiana. Um ônibus de ótima qualidade, que custa cerca de 20 euros, te deixará ao lado da estação de trem de Rimini.  Para subir o Monte Titano e chegar a San Marino, você pode ir de taxi (custa 50 euros) ou, se preferir economizar, pegue um micro-ônibus (custa 5 Euros), que te deixará no centro histórico do país. Caso opte por um trem em Bolonha, o destino é Rimini, e aí, seguem as mesmas opções.

Seguindo pela estrada Rimini a San Marino, percorremos em um leve zigue-zague, cerca de 9 pequenos municípios, onde a maioria da população san marinense (ou “sammarinese”, no idioma deles) mora. Foram 45 minutos até o cume do Monte Titano. E lembre-se que ainda temos o Centro Histórico, a parte mais alta da cidade, a 719 metros de altura em relação ao nível do mar.

A equipe do Birdymee e eu escolhemos passar o “Capodanno” –  o Réveillon, para nós – em San Marino.  Nos hospedamos no Grand Hotel San Marino, o segundo mais importante do país, atrás do Hotel Titano, com diárias muito mais elevadas, ainda que ambos pertençam ao GHSM Group. O Grand Hotel San Marino é sinônimo de hospitalidade, conforto e tradição. Conta com um renomado restaurante, bar, room service, salões de eventos, fitness & Mességué Wellness Centre,  piscina e jacuzzi. Os quartos são amplos e bem equipados, possuem varandas com uma excepcional vista panorâmica.  Enfim, um excelente custo benefício, com ótima localização e principalmente pela atenção, simpatia e cordialidade do staff. Nossa “ceia da virada” foi ali mesmo.

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Tivemos a sorte de conhecer o Cônsul de San Marino no Brasil, o Sr. Mario Antonio Turnaturi, que nos indicou a Filippo Francini, um dos responsáveis pelo Setor de Turismo na República. Filippo fala português e é muito atencioso e eficaz, que gentilmente nos levou a diversos locais interessantes do pequeno país, onde destaco dois.

O primeiro é o Consorzio dei Vini Tipici de San Marino. Como o nome diz, trata-se de um consórcio de produtores de vinho da região (seu principal produto), mas também de azeite de oliva, mel, torrone, tortas típicas e outros.

Conhecemos o enólogo responsável, que nos mostrou as instalações, e também provamos alguns de seus vinhos. O que mais me chamou atenção foi ter bebido vinho na bica (veja foto)! Isso mesmo, qualquer um pode trazer seu recipiente, enchê-lo e pagar por litro, seja vinho ou azeite. É um vinho simples, mas ótimo pelo seu valor (cerca de 2 euros o litro). Este método remete à ideia que defendo: o vinho é alimento e deve ser consumido todos os dias, principalmente durante as refeições.  Paremos de pensar que o vinho é produto de luxo e voltado apenas para rituais!

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Ainda no Consorzio, provamos o Biancale, um branco de boa acidez e frutado fresco, sem barrica, bem agradável e bom de harmonizar. Depois foi a vez do Puri de Cuore, um sangivese 100% com leve passagem em madeira. Equivale em “pé de igualdade” a qualquer Chianti. Então foi a vez do Brugguetto, DOC, produzido só em safras ótimas. Um blend com 85% sangiovese, 10% merlot e 5% cabernet. Doze meses em barricas francesas e mais seis meses em garrafa, com 13,5 graus de álcool (meu número no momento!) A relação entre “custo x qualidade” deste vinho também me chamou a atenção. Ele é marcante e ótimo para uma bela carne. Um sammarinese de personalidade forte, sem ser agressivo.

Por último, tomamos o Oro dei Goti , 100% moscato e de colheita tardia, ocorrida nos fins de outubro e começo de novembro. Pré-fermentação controlada e posterior fermentação em aço inox, com envelhecimento em toneis franceses. Excelente vinho!  Eu o provei com um mil folhas e recomendo. Falta citar o da linha clássica,  o Tessano de San Marino, que ainda não tomei, mas trouxe para casa. Quem quiser saber sobre ele, me escreva! No site www.consorziovinisanmarino.com, você também encontrará mais detalhes e características de todos os vinhos mencionados.

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O segundo lugar que mais gostei, mostrado por Filippo, é a casa onde Anita Garibaldi se hospedou. Ela, Garibaldi e mais 200 homens fugiam dos austríacos, quando conseguiram asilo temporário em San Marino. Anita, doente e com febre, repousa no aposentos do Café Simoncini ( ver foto da janela), cujos donos eram Lorenzo e Giuditta Simoncini. Sob ameaça de devastação em San Marino, Garibaldi resolve partir. Seu desejo era deixar Anita no Café, mas ela não abre mão de seguir com ele em direção a Veneza. Anita não resiste e ao final da viagem, morre aos 28 anos.

De modo geral,  gastronomia de San Marino é muito semelhante à culinária italiana, especialmente àquela da região da Emilia Romagna, composta por ingredientes leves da dieta mediterrânea. O cardápio é sempre apresentado em entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. Os melhores restaurantes usam farinha feita com trigo de  sementes da época medieval, o que deixa as massas ficam mais leves e saborosas. Um dos pratos típicos do país é o presunto cozido com maturação de 1 mês:  durante todo este tempo, a carne descansa e ganha sabor com uma mistura de ervas finas e recheio de trufas brancas. A sobremesa mais famosa de San Marino também é feita à moda antiga:  feita a mão, a torta Tre Monti, possui várias camadas finas de waffer, recheada com creme de avelã e coberta com chocolate. Uma delícia!

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Nossa ceia de Capodanno e o jantar de despedida foram verdadeiros banquetes!

No Capodanno, no Grand Hotel San Marino, um coquetel com espumante e aperitivos como Aperol, Campari e sucos de fruta abriram a noite. Os canapés eram de Salmão, patês, aliches e cremes de queijos. Bons, sem serem maravilhosos. Já no jantar, foram servidas “maravilhas” do começo ao fim, acompanhadas, é claro, de espumantes, vinhos branco e tinto do Consorzio de San Marino. As águas, eram da Panna sem gás ou da San Pelegrini frizante. Os doces da pasticceria italiana são inspirados na francesa.

A propósito, pratos como a entrada e o principal foram servidos em dose dupla:  não eram para ser escolhidos, eram para ser apreciados ambos! Ao final do texto, Veja o cardápio completo de nosso jantar no Réveillon em San Marino. Mantive os pratos em italiano, a fim de preservar sua originalidade.

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No jantar de despedida, nosso anfitrião, Filippo, nos indicou o restaurante do Hotel Titano, de mesmo nome, comandado pelo Chef Graziano, que nos recebeu e indicou um cardapio especial para a noite.

Começamos com um espumante, que por ter sido servido em taça de welcome drink, não sei indicar seu nome. Junto com esse espumante básico de boa qualidade, veio uma entradinha à base de frutos do mar. Em seguida, o Chef Graziano nos ofereceu um jantar “três tempos” por sua escolha. O primeiro, foi um ótimo brodo de capeletti tradicional. O próximo prato foi um delicioso filet de vitela ao balsâmico, com alcachofras empanadas e fritas, bem secas. Para sobremesa, um mil folhas tradicional.  Quanto ao vinho, como o menu era surpresa, escolhi um Pinot Nero ( Pinot Noir ) para não errar – e fui feliz em minha escolha!

De modo geral, a população de San Marino é hospitaleira e disposta a dar informações. O feriado de 1º de janeiro no país é muito parecido com o do Brasil. Como a cidade é puro turismo, o comércio estava todo aberto, porém, os serviços públicos, nem todos. Ainda assim, conseguimos fazer várias coisas.

Para chegarmos ao centro histórico, atravessamos a Porta de San Francesco na muralha da cidade e fomos a Piazza della Libertà, coração da cidade que abriga o imponente Palazzo Pubblico (Palácio do Governo). Já na Piazzale Belvedere ou del Cantone, de onde partem os funiculares, andamos de funicular para apreciarmos a vista.  Também visitamos a Basílica de San Marino, além dos museus de cera, da curiosidade, do vampiro e da tortura. No almoço, comemos uma bela pizza na praça em frente ao castelo (sede do governo) e ainda sobrou tempo para visitarmos as “Três Torres”, o maior símbolo do país, o qual abriga a bandeira nacional. As torres Rocca Guaita, La Cesta e Montale  são conectadas por uma longa muralha medieval, onde se caminha muito!

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A cidade,  datada do século IV, é um burgo medieval, e por isso, os prédios são quase todos em pedras e com ruas estreitas – acrescente as inclinações e terá o cenário perfeito com o mais famoso pôr do sol da Europa!

Mas a animação para a festa de Capodanno não é a mesma do Brasil: o estouro de espumantes e de fogos de artífício encerra-se assim que vira o ano. E fim de festa!

 

CARDÁPIO DI CAPODANNO

ENTRÉE

Roccher di riso venere com king Crabs, su gazpacho di avocado.

ANTIPASTO

Mazzancolle in pasta Kataifi su crema di patata e quinoa al tartufo nero di stazione.

PRIMO

Velluta di ceci e bacacalá com tentacolo di polipo cotto a bassa temperatura aromatizzato all”olivo EVO di n Marino.

Risotto Carnaroli su carpaccio di mazzancolle, coralli di gambero rosso e straccetti di burrata pugliese.

SECONDO

Filetto di ombrina in mosaico, Grilata su crema de asparagi, capesante, vongole veraci e tonato piastrato. Carote e Zucchine in abbinamento.

Cotechino e lenticchie, segundo tradizione.

DESERTE

Micelanie di dolce tentazione

 

 

Saúde!

Alexandre Furniel

Sommelier e Blogueiro Enoturismo