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Crônica Birdymee – Por que quero ser maritaca

Todos os dias, às seis da manhã é aquela algazarra: vozes que vieram de longe e que de repente, se reúnem debaixo de minha janela, como se ali fosse o único lugar no mundo onde pudessem estar juntos para aquela gritaria toda. Salto da cama emburrada e com passos duros, caminho até a janela, onde ergo o vidro de uma vez com o objetivo de espantar aquela corja de arruaceiros que não respeita o sono alheio. Um deles me fita, pendurado pelos pés no parapeito do telhado a frente, como um artista de circo que observa o mundo de cabeça para baixo. Ele está feliz. Seus olhos cintilam alegria e consigo notar até mesmo, um sorriso em seu bico. Então, ele grita outra vez: GRAAAAA!!!

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Um coral de maritacas se junta àquele pequeno artista e cada uma, em seu tom, solta sua voz. O telhado está repleto delas, assim como, as árvores do quintal. Enquanto algumas fazem malabarismos, outras voam ou se penduram em galhos finos que balançam. Há as que aproveitam o ensejo para fazerem um lanche ao comerem as sementes alaranjadas e redondas dos buritis.

Esqueço-me que são seis horas da manhã e que não pude mais dormir. Apenas contemplo, com o coração alegre e cheio de gratidão, aquele espetáculo. Quando menos espero, uma das maritacas alça voo para fora do meu quintal e as demais — cerca de oito —  a acompanham. Aos poucos, o barulho de tanta tagarelice se esvai… Baixa um, dois, três tons até que, estando lá distante, não lhes consigo mais ouvir.

Como se fossem mochileiras Birdymee, as maritacas fazem do mundo, o seu lugar. Estão à leste nos Andes, da Colômbia à Venezuela, passando pelo norte da Argentina e Uruguai. Estão na Amazônia brasileira e também no Centro-Oeste, bem como em São Paulo e no Sul do país. Viajam em grupos de até cinquenta aves para dividir experiências, lugares e é claro, a boa comida. Compartilham tudo umas com as outras o tempo todo: GRA! GRA! GRA! — ainda que às seis da manhã!

Quando exaurem as possibilidades de um destino, partem imediatamente para outro. Há tantas janelas e árvores em quintais para se explorar, uma infinidade de roteiros debaixo da imensidão do céu azul… E eu, de minha janela, que penso na vida das maritacas, me sinto contemplada por me permitir ver a cumplicidade em sua forma tão pura. Em breve, voltarei também a ser pássaro-Birdymee para voar por lugares com meu bando. Quem sabe, façamos como as maritacas e nos peguemos em uma tremenda algazarra às seis horas da manhã sob a janela de alguém.

 

BRUNA GALVÃO

Jornalista e escritora

[email protected]

 

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