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Brasileiros no exterior relatam como vivem a quarentena

Agonia, desespero, solidão. Estes são alguns dos sentimentos que brasileiros que moram no exterior têm vivenciado durante a quarentena do coronavírus a partir de suas realidades locais. Por outro lado, existe a sensação de tranquilidade para alguns e a esperança de que tudo vai ficar bem, para outros.

Birdymee conversou com brasileiros na Itália, Canadá, México, Irlanda do Norte, Estados Unidos, Suíça e Espanha. Confira os relatos!

“Vivo em agonia. Tenho direito a cinco minutos de sol por dia”

Valkíria Câmara, 38, decoradora – BERGAMO, ITÁLIA

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A minha quarentena tem sido de agonia. Não vejo a hora que este vírus passe! A única coisa boa é que as minhas crianças são tranquilas: elas brincam, fazem as coisas delas, não reclamam, estudam muito.

Minha quarentena é reclusão total, sem sair. Temos que respeitar, porque se você sai a mais de 200 metros da sua casa com o cachorro, você toma uma multa de 400 euros. Então é uma quarentena realmente restrita: só uma pessoa sai. Quando esta pessoa volta, ela toma banho dos pés à cabeça.

Moro em um apartamento e vou da sala para o quarto, para a cozinha, para o banheiro. Meu direito diário a sol é de cinco minutos, no rosto, quando o sol entra pela janela do quarto das crianças.

Enquanto as pessoas não se conscientizarem de que a quarentena tem que ser feita em casa, este vírus vai continuar.

 

“Ao contrário de outros lugares, aqui não há pandemônio”

Arahão Gazana, 37, Engenheiro Industrial – PRINCE GEORGE, CANADÁ

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Moro com minha esposa, grávida de sete meses, no norte da província de Columbia Britânica, na cidade de Prince George, no Canadá. Uma cidade que apesar de ser a maior da região norte, tem apenas 80 mil habitantes. Apesar do pandemônio que parece estar acontecendo em outros lugares do mundo, aqui está bem tranquilo.

Assim que o vírus foi detectado no país, o governo decretou medidas para contê-lo. Após três semanas ou um pouco mais de isolamento preventivo, a vida volta ao normal por aqui.

No meu trabalho de pesquisas na faculdade, não paramos. Demos apenas uma desacelerada.

Aos finais de semanas, fazemos caminhadas nos parques.  Com os restaurantes fechados, ficamos com a opção do delivery ou de cozinhar em casa mesmo.

A Adelaine, minha esposa, resolveu voltar a trabalhar num supermercado a cinco minutos de caminhada de casa. Já não estava suportando ficar em casa (risos). Os supermercados daqui se preocupam bastante com os funcionários. Os caixas quase que parecem com lotéricas do Brasil. O contato com os clientes foi reduzido ao mínimo necessário.

 

“Tem sido desesperador ficar sozinho em casa”

Paulo Dias, 31, Consultor de TI, CIDADE DO MÉXICO, MÉXICO

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Aqui no México, o medo do COVID-19 não é tão forte quanto há alguns anos com a gripe suína (que teve início por aqui), e as estimativas são de que menos de 30% da população tem evitado sair às ruas.

A única propaganda do governo federal foi uma personagem chamada “Susana Distância” (trocadilho pra “Su Sana Distância”).

Depois de muita pressão popular, e de um evento de música chamado Viva Latino com mais de 110 mil pessoas, houve o fechamento de alguns estabelecimentos. Aqui na Cidade do México, capital do país, esse fechamento inclui bares, cinemas, igrejas, teatro, academias e zoológico, além da procissão de aglomerações de mais de 50 pessoas. Em outros estados, foi determinado o fechamento de shoppings, fábricas de produtos não essenciais e lei seca.

Muitas empresas estão demitindo e fechando, sem nenhum tipo de apoio do governo nesse momento de crise.

No meu caso, a empresa onde trabalho tem nos dado bastante apoio. Estamos trabalhando em home office desde o dia 13 de março. A empresa tem nos enviado vídeos de tirinhas de exercícios que podem ser feitos em casa e aulas de yoga, que me mantém ocupado algumas horas na semana.

Como moro sozinho,  tem sido um pouco desesperador [se isolar em casa]. Fiz minha despensa logo no começo da crise, para evitar ao máximo o contato com outras pessoas.

Para aguentar esses dias, tenho ido apenas na área verde do prédio onde moro, e só quando não há mais de cinco pessoas por ali. Para matar a saudade dos amigos, temos feito vídeo-chamadas diárias no fim do expediente.

Não vejo a hora de sair para um happy hour com a comunidade brasileira daqui!

 

“Tenho apenas minhas duas orquídeas para conversar”

Camila Casella, 41, Relações Internacionais, BELFAST, IRLANDA DO NORTE

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Faz um mês que mudei para o meu apartamento. Faz um mês que estou morando sozinha pela primeira vez na vida. Só não esperava passar por essa experiência em quarentena. Em casa, converso com as minhas duas miniorquídeas.

Trabalho em um hotel renomado e por recomendação do governo e precaução, nossas atividades foram temporariamente suspensas. Devido à esta crise, o governo britânico está arcando com 80% dos salários dos funcionários que estão sem trabalhar.

Os irlandeses são muito certinhos e cumprem, à risca, todas as recomendações contra a transmissão do coronavírus: todos estão em casa, as pessoas que precisam sair usam máscaras, todos respeitam a distância de um metro uns dos outros.

Aqui não está proibido fazer caminhadas no parque. Desde que se respeitem os limites de distância e não se caminhe em grupos, está tudo bem. Se você mora com alguém, está liberado caminhar apenas com esta pessoa.

 

“Desde que minha patroa teve os primeiros sintomas de COVID-19, estou em casa”

Mariana Langoni, 33, Gestão de RH, IOWA CITY, ESTADOS UNIDOS

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Como Iowa é um Estado pequeno e pouco populoso, os números de confirmados com COVID-19 não estão crescendo assustadoramente como em outros Estados americanos. O nosso county [microrregião dentro de um Estado americano] é o segundo maior do Estado em número de casos, mas eu acredito que seja por conta do hospital universitário que temos aqui.

O inverno aqui é muito rigoroso e como estamos no início da primavera, as pessoas querem muito sair de casa. Por Iowa ser uma cidade muito ativa, com muita segurança, muitos parques, sempre tem gente na rua caminhando ou passeando com o cachorro. Nem todos estão comprometidos [em fazer a quarentena em casa]…

Desde que minha patroa teve os primeiros sintomas de COVID-19 que estou dentro de casa. Mas graças a Deus, ela não tem nada, pois em uma semana, os sintomas passaram. Ainda assim, não saio de casa para nada. Já há duas semanas, só faço compras online, não saio nem para ir ao mercado. Meu marido, Rayne, também fica em casa o dia todo.

Fazemos isto não pelo número de casos, mas pela precaução: não queremos passar pelo o que a gente vê em outros países.

 

“É surreal conviver com tudo isto”

Franklin Bahiano, 36, Jogador de Futebol – RICCIONE, ITÁLIA

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Desde 9 de março foi decretada a quarentena na Itália. De lá para cá, estamos em uma situação muito tensa. Ainda é um pouco surreal conviver com tudo isto. Sair de casa, só em extrema necessidade, como ir ao supermercado ou à farmácia e mesmo assim, somente um membro da família pode circular, com autorização. Se for pego pela polícia, deve explicar aonde está indo, o que vai fazer…

Nos supermercados, a situação é mais tensa, com controle da quantidade de pessoas que está dentro do estabelecimento para não criar aglomeração.

O dia a dia está sendo bem complicado, porque temos sempre que procurar preencher o tempo para não ficar estressado ou preocupado. Procuro sempre fazer meus treinos dentro de casa, de segunda a segunda, para poder passar sempre o tempo e me manter em forma.

 

“A pandemia pegou a todos de surpresa!”

André Galvão, 36, Comunicador – ZURIQUE, SUÍÇA

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Faz 6 meses que estou na Suíça. A pandemia pegou a todos de surpresa! Até então, estava trabalhando aqui em Zurique, mas como tudo fechou por prazo indeterminado, estou aguardando o retorno das atividades.

O governo suíço tem um plano que garante o pagamento de 80% do salário de todos que trabalham legalmente aqui. Existe uma burocracia para isso, e funciona de forma diferente dependendo do tipo de contrato que o trabalhador tem. Mas isso nos passa tranquilidade.

Enquanto isto, cumpro a quarentena com minha esposa. Ficamos em casa a maior parte do tempo, mas saímos para ir ao supermercado e para eventuais caminhadas. A regra é para que não haja aglomerações com mais de cinco pessoas e para que se mantenha uma distância de dois metros entre grupos. Se não for respeitado, a multa é de 100 francos!

 

“De repente, esse bichinho que vinha de tão longe, estava aqui”

CMF*, Professor – MADRI, ESPANHA

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De repente, uma cidade com pulso, com energia,  vitalidade como é Madri, pouco a pouco, parou.

Esta é a foto da nossa janela. Com o lema “Todo saldrá bien”  (tudo vai ficar bem), que todos os dias,  às 20h,  aplaudimos, das janelas,   os profissionais da saúde que lutam corpo a corpo para salvar vidas.

Já estamos há 28 dias em confinamento. Antes, para todos,  o coronavírus estava muito longe: lá na China, lá na Itália… Esse bichinho globalizado, que não vemos!

Estes dias foram de muita dor, medo, impotência. Amigos perderam parentes, alunos que foram contaminados. Pessoas dividindo apartamentos com pessoas contaminadas. Muitos idosos mortos. A Espanha tem uma população bem idosa e em Madri foi um horror! Casas de idosos que se tornaram necrotérios. Parentes que não puderam se despedir de seus entes queridos. E, de repente, esse bichinho que vinha de tão longe, estava aqui.

Aconteceu tudo muito rápido: faltaram materiais, respiradores, máscaras… Mas no lado positivo,  não faltou o ânimo para dar a seu vizinho, às 20h, e aos que estão lutando para sanar tudo.

Para dar ânimo ao próximo, uma das músicas mais tocadas no momento é “Resistiré” do grupo Duo Dinâmico. É muito bonita!

Estou trabalhando muito. O homeoffice é a palavra do momento. Uma loucura, trabalhamos muito mais!

Dias Melhores Virão!

Todo Saldrá Bien!

*Não quis ser identificado

 

 

 

Sobre o autor
  1. Eleni Martins. Responder

    Eu observo que as pessoas em qualquer parte do mundo, existe um medo peculiar, uma solidão ao se privar entre quatro paredes, por conta do Coronavirus. Tudo passará!

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